segunda-feira, 25 de maio de 2015

___da menina que fui











Muitas vezes eu já senti saudade da menina que fui. Muitas vezes eu a procurei em vão, como quem revira gavetas à procura de algo que não lembra de já ter dado a alguém. Um dia, tive mesmo a impressão de que ela havia passado pelas ruas de sempre e, entre alegre e triste como ela só, havia deixado um rastro de perfume e se transformado em saudade. Muitas vezes pensei tê-la visto comprando pipocas do carrinho que ficava lá, no Passeio Público, em um domingo qualquer; parecia estar sorrindo para mim enquanto corria para dar comida aos gansos. Afinal, ela jamais decidiu se sentia medo deles ou se os adorava. Talvez as duas coisas. Muitas vezes achei que não tornaria a vê-la, iluminada pelo sol ou pela lua, cantando as canções que ouvia no velho rádio de onde as notas saíam banhando a casa com um som de amor. Vi algumas pessoas sentirem saudade, muita saudade, dela. Essas pessoas me perguntaram por onde andavam aqueles olhos que pareciam duas contas azuis [ou seriam verdes?]. Dia desses, dei de cara com ela, ela mesma, a menina que eu fui!
Estava ali, a distância de um toque, pendurada em meu pescoço, sorrindo e despenteando meu cabelo enquanto eu tentava arrumá-lo diante do espelho. Agarrei suas mãozinhas quentes, queridas. E então, ficamos a nos olhar assim, com carinho nos olhos. Até que um vento travesso soprou mais forte e meu diário, aberto sobre a escrivaninha, teve suas páginas mexidas. Quando o vento se foi, a página que deixou de se mover continha uma citação de Isadora Duncan, que eu copiara anos atrás porque gostara muito: “Você já foi ousada, não permita que a amansem.” Quando olhei de novo para o espelho, a menina que eu fui não estava lá. Bem. Não exatamente. Apenas notei que em algum lugar dos meus olhos estavam as duas contas, belas e grandes, brilhantes e muito azuis [ou serão verdes?].

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[imagem: todd lertoes]


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