Um
dia, depois de tanto e de quase tudo, eu achei que estivesse surda de tanto
ouvir apenas o som gritante da solidão. Foi uma questão de minutos. Em seguida,
não sei ao certo o que aconteceu. Não sei se espanei a poeira da autopiedade ou
se, simplesmente, me preparei para a vida. O fato é que, sentada à mesa da
cozinha e tomando um caldo de mesmices tão-sem-sal, eu comecei, aos poucos, a
ouvir os sons do mundo. Era o tilintar dos sinos da matriz. A folia dos meninos
que jogavam bola na rua. Era o barulho dos pratos sendo postos à mesa e, mais
longe, o grito horrendo de um leitão sendo perseguido para ser abatido - ceia
de fim de ano - por um homem, seu eterno algoz.
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imagem: aglaé gil

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