Algumas
palavras que me arranhavam as gavetas da alma, eu já não disse. Não faziam mais
qualquer sentido. A boca parecia costurada com linha colorida, como nas bonecas
de pano. E o silêncio tinha um gosto de pão amanhecido e cheiro de café que
esfriara na caneca. Entretanto, isso tudo era preferível a usar as palavras
guardadas desde um tempo tão remoto que até a memória delas tinha tons sépia.
Não que eu tivesse alternativa, já que os ouvidos estavam mais moucos do que
sempre e as mentes tão rasas que repetiam atitudes burras travestidas de razão.
Não que eu fosse genial, mas bem que sabia sair de labirintos maiores, quando
os reconhecia construídos por mãos de papelão e por transístores. Algumas palavras
eu jamais diria. E o bolor que tais palavras criariam talvez fosse útil nos porões
onde, deitados, os vinhos esperam por bocas e festins.
_________________________
[imagem: jethouse]

Nenhum comentário:
Postar um comentário