Eu
ainda poderia dizer as mesmas coisas a você. Eu poderia ficar horas falando e
falando como se enxugasse toda a chuva das nuvens. Mas acho mesmo que ainda
assim você não me escutaria. Minhas palavras sempre lhe soaram vazias. De
sentido e de som. Se eu falasse demais até entenderia, mas esse não foi nem é o
caso. Falei e falo pouco. Apenas agora, talvez movida por essa avalanche de
dor, eu desague sem dó ou piedade sobre uma planície sempre risonha e ao mesmo
tempo triste. Sobre o vale ressequido do seu coração. Mas não é assim. Não foi
assim. Meu silêncio sempre pontuou nossos momentos e eu preferi me calar por
muitas coisas que não vêm ao caso. Ainda assim você não me ouve. Nem na minha
dor mais aguda. Nem na minha avalanche de mágoas. Afinal....por que iria? Por
que ouviria? Sempre fez ouvidos moucos à própria vida. Não me dará respostas. Pensando bem eu não as
quero. Importa despejar o óleo sobre o oceano que parece limpo mas que tem as
águas mais turvas de que já se teve ciência. Importa são as perguntas, esse
tanto de questões deslumbradas de uma mulher que antes não perguntava tanto,
mas apenas porque queria deixar o tempo fluir e o momento crescer como um falo
de expectativas. Ficará olhando para mim com esses dois olhos mortos, parados
como águas de um lago de sal. E ninguém poderá adivinhar o que mora do outro
lado deles, nas cavernas escuras, nas órbitas que os guardam e protegem. Nem
mesmo a mãe de toda a ira. Minha dor. Antes eu costumava saber o que se passava
em sua mente antes mesmo de você olhar para mim. Bastava um leve menear de
cabeça, um afligir de mãos, a língua rápida a correr pelos lábios. Tudo antes
que os seus olhos chegassem aos meus. Agora? Quem sou eu agora para saber
qualquer coisa além de mim, se nem de mim mais tenho pseudocertezas? Antes, quando seus olhos chegavam ao encontro
dos meus eu já havia escrito toda a história - já descrevera até mesmo a
mentira, se houvesse uma, que me contaria olhando-me como cão sem dono, com
aquele par de olhos castanhos moles, aguados, parados. Agora, ainda que eu esteja
olhando fundo para eles, nem se passa pela minha mente qualquer meneio de
ideia. Não sei quem é você, não sei do ermitão que ruge para mim das
cavernas-órbitas de seu olhar. Muito menos adivinho palavras que,
provavelmente, jamais ouvirei saírem de sua boca - casa de umas frases que um
dia me fizeram feliz. Isso, porque, de sua parte, não há o menor interesse em
facilitar os meus dias. Não mais. Nada mais quer ou espera de mim. Já não há
utilidade em agradar-me com um riso, uma palavra, uma expressão. Gratuitas
maneiras são inúteis, vãs. Há que se medir sempre o valor das horas. De minha
parte, já não me contentaria com tão pouco. Um ramo de 'ois'; um colar de
sorrisos perolados; uma travessa torcida de nariz; um brilho de estrela cadente
no canto dos olhos e outro no céu da boca que eu beijei. Não. Para mim tudo
isso seria tão pouco agora. Vivi anos feitos de dias de mais. Dias feitos de
horas de mais. E o tempo da dor é este: cada minuto, cada segundo. Um relógio
gigante, porém mínimo, registra cada fisgada. E, um certo dia, a gente se vê
querendo ser mais do que sempre foi.
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[imagem: marley c.]

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