segunda-feira, 25 de maio de 2015

___das perdas









Eu ainda poderia dizer as mesmas coisas a você. Eu poderia ficar horas falando e falando como se enxugasse toda a chuva das nuvens. Mas acho mesmo que ainda assim você não me escutaria. Minhas palavras sempre lhe soaram vazias. De sentido e de som. Se eu falasse demais até entenderia, mas esse não foi nem é o caso. Falei e falo pouco. Apenas agora, talvez movida por essa avalanche de dor, eu desague sem dó ou piedade sobre uma planície sempre risonha e ao mesmo tempo triste. Sobre o vale ressequido do seu coração. Mas não é assim. Não foi assim. Meu silêncio sempre pontuou nossos momentos e eu preferi me calar por muitas coisas que não vêm ao caso. Ainda assim você não me ouve. Nem na minha dor mais aguda. Nem na minha avalanche de mágoas. Afinal....por que iria? Por que ouviria? Sempre fez ouvidos moucos à própria vida.  Não me dará respostas. Pensando bem eu não as quero. Importa despejar o óleo sobre o oceano que parece limpo mas que tem as águas mais turvas de que já se teve ciência. Importa são as perguntas, esse tanto de questões deslumbradas de uma mulher que antes não perguntava tanto, mas apenas porque queria deixar o tempo fluir e o momento crescer como um falo de expectativas. Ficará olhando para mim com esses dois olhos mortos, parados como águas de um lago de sal. E ninguém poderá adivinhar o que mora do outro lado deles, nas cavernas escuras, nas órbitas que os guardam e protegem. Nem mesmo a mãe de toda a ira. Minha dor. Antes eu costumava saber o que se passava em sua mente antes mesmo de você olhar para mim. Bastava um leve menear de cabeça, um afligir de mãos, a língua rápida a correr pelos lábios. Tudo antes que os seus olhos chegassem aos meus. Agora? Quem sou eu agora para saber qualquer coisa além de mim, se nem de mim mais tenho pseudocertezas?  Antes, quando seus olhos chegavam ao encontro dos meus eu já havia escrito toda a história - já descrevera até mesmo a mentira, se houvesse uma, que me contaria olhando-me como cão sem dono, com aquele par de olhos castanhos moles, aguados, parados. Agora, ainda que eu esteja olhando fundo para eles, nem se passa pela minha mente qualquer meneio de ideia. Não sei quem é você, não sei do ermitão que ruge para mim das cavernas-órbitas de seu olhar. Muito menos adivinho palavras que, provavelmente, jamais ouvirei saírem de sua boca - casa de umas frases que um dia me fizeram feliz. Isso, porque, de sua parte, não há o menor interesse em facilitar os meus dias. Não mais. Nada mais quer ou espera de mim. Já não há utilidade em agradar-me com um riso, uma palavra, uma expressão. Gratuitas maneiras são inúteis, vãs. Há que se medir sempre o valor das horas. De minha parte, já não me contentaria com tão pouco. Um ramo de 'ois'; um colar de sorrisos perolados; uma travessa torcida de nariz; um brilho de estrela cadente no canto dos olhos e outro no céu da boca que eu beijei. Não. Para mim tudo isso seria tão pouco agora. Vivi anos feitos de dias de mais. Dias feitos de horas de mais. E o tempo da dor é este: cada minuto, cada segundo. Um relógio gigante, porém mínimo, registra cada fisgada. E, um certo dia, a gente se vê querendo ser mais do que sempre foi.

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[imagem: marley c.]

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