Ele
usava sempre uma estranha e colorida gravata borboleta e passava, todos os
dias, mãos nos bolsos das calças brancas de linho, com uma passada quase
dançante. Era feito um personagem das histórias nascidas sob os arcos da Lapa,
no tempo em que malandro era malandro mesmo e só malandro. Não se via os olhos.
As abas do chapéu faziam sombra. Costumava assobiar a mesma canção. Sempre a
mesma melodia. E passava no mesmo horário, todos os dias. Sempre naquele
primeiro momento da noite, quando o lusco-fusco escapa num repente e a primeira
estrela brilha mais. Eu era menina, brincava na rua com as outras crianças e já
começava a enfeitar a minha alma com canções, histórias que ouvia e intuições
que tinham asas. Quando ele passava, com aquela gravata borboleta que chamava a
atenção até da lua, eu parava qualquer coisa que estivesse fazendo e me sentava
no meio-fio. Olhar para ele e ouvir seu assobio dava-me a sensação de que
estava fazendo uma grande viagem. Para onde exatamente, eu nem sei.
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[imagem:tommy usher]

Eu gosto muito desta história sobre o homem com a gravata borboleta. Pintado um retrato tão vívido.
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