segunda-feira, 25 de maio de 2015

____a mulher amarelo sol













A mulher eu achava engraçada. Ela se vestia de um jeito mais colorido que as demais que eu conhecia, as que viviam na rua em que morávamos, já longe daqui. Em tempo e espaço. Ela passava, ligeira e sorridente. Batom vermelho, pernas finas e longas. Uma imagem longilínea. Falava como andava: com rapidez e pressa. Atropelava palavras. [ou é uma impressão que criei?]. Descia para tomar o ônibus quase todas as tardes. Depois, mais tarde, eu a via subindo, voltando. Nem mais lenta nem cansada. Cumprimentava de novo quem encontrava e passava, atropelando a si mesma. Certo dia, eu me lembro, houve um acidente com o ônibus quase ali, no ponto em que ela descia, muito próximo a nossa rua. Por algum motivo o ônibus caiu de lado, tombou sem jeito. Ela não teve dúvidas. Enquanto outros gritavam, o motorista tentava sair, abrir a emergência, as pessoas que viram desciam a rua para ajudar -ou só olhar - a mulher desceu pela janela do banco em que estava sentada. Primeiro as pernas, depois o tronco. E seu vestido e suas anáguas causaram furor quando se ergueram enquanto as pernas dela se mexiam com agilidade mas algum atrapalho para pular. As pessoas riam, a chamavam, se aproximavam querendo ajudar. Mas ela nem precisou de ajuda. Assim que desceu se aprumou e, ajeitando anáguas, saias e a bolsa, tudo tão amarelo-sol, prosseguiu elegante e rápida. Era como se nem susto houvesse tido. Ela era assim. Eu me lembro. Foi uma figura que marcou. Talvez pelos amarelos, vermelhos e roxos. Talvez pela rapidez dos passos a pisarem ruidosamente as pedras de paralelepípedo. Talvez porque ela tivesse aquela alegria grudada de um jeito tão espontâneo na pele e na alma. E lá se vão cinquenta anos....


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[imagem: rocky my wedding]













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