A
mulher eu achava engraçada. Ela se vestia de um jeito mais colorido que as
demais que eu conhecia, as que viviam na rua em que morávamos, já longe daqui.
Em tempo e espaço. Ela passava, ligeira e sorridente. Batom vermelho, pernas
finas e longas. Uma imagem longilínea. Falava como andava: com rapidez e
pressa. Atropelava palavras. [ou é uma impressão que criei?]. Descia para tomar
o ônibus quase todas as tardes. Depois, mais tarde, eu a via subindo, voltando.
Nem mais lenta nem cansada. Cumprimentava de novo quem encontrava e passava,
atropelando a si mesma. Certo dia, eu me lembro, houve um acidente com o ônibus
quase ali, no ponto em que ela descia, muito próximo a nossa rua. Por algum
motivo o ônibus caiu de lado, tombou sem jeito. Ela não teve dúvidas. Enquanto
outros gritavam, o motorista tentava sair, abrir a emergência, as pessoas que
viram desciam a rua para ajudar -ou só olhar - a mulher desceu pela janela do
banco em que estava sentada. Primeiro as pernas, depois o tronco. E seu vestido
e suas anáguas causaram furor quando se ergueram enquanto as pernas dela se
mexiam com agilidade mas algum atrapalho para pular. As pessoas riam, a
chamavam, se aproximavam querendo ajudar. Mas ela nem precisou de ajuda. Assim
que desceu se aprumou e, ajeitando anáguas, saias e a bolsa, tudo tão
amarelo-sol, prosseguiu elegante e rápida. Era como se nem susto houvesse tido.
Ela era assim. Eu me lembro. Foi uma figura que marcou. Talvez pelos amarelos,
vermelhos e roxos. Talvez pela rapidez dos passos a pisarem ruidosamente as
pedras de paralelepípedo. Talvez porque ela tivesse aquela alegria grudada de
um jeito tão espontâneo na pele e na alma. E lá se vão cinquenta anos....
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[imagem: rocky my wedding]

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