Ontem,
pensei muito em uma amiga, companheira de batalhas plurais. E, por me lembrar
dela, lembrei-me daqueles dias. Foram dias difíceis aqueles, sim. Estivemos
todos a um passo da entrega, do desengano. Os dias não brincavam mais. As ruas
viviam o dia e morriam a noite, vazias. Mas por algum precioso milagre [como se
milagre não fosse por si só precioso até demais], nós nos demos as mãos e
descobrimos a nossa gana crescendo e o céu se abrindo para soltar borboletas. Estava
assinado no bilhete que as trouxera: Luta, sobrenome Esperança. E lá fomos. E
fomos nós. Até poder ver os dias brincarem novamente. Mas será que eles
brincam, de fato? Ou fomos enganados, entretidos por sonhos e circo? Eu pouco a
vejo, hoje, a minha amiga. Quando a vejo, parecemos estar sempre com muita
pressa, nossa conversa é ligeira, repleta de banalidades sociais quase que
obrigatórias. Na despedida, prometemos muito. Nada cumprimos. E a vida segue o ritmo tão próprio. Ela tem
netos e vive com eles. Eu sou família de uma, não conheço a inebriante vida dos
avós. Não desgosto de crianças, mas não tenho ímpeto por elas. De algum modo, e
isto é tudo, vivemos as duas jovens e idealistas num ponto cardeal do tempo -
lá, somos nós as netas, as filhas, logo em seguida as jovens mães. Lá ficamos.
Muito de nós lá ficou.
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[imagem: via providence]

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