quarta-feira, 27 de maio de 2015

_______o dia em que a vida desbotou














Estive lá e, no dia seguinte,já não havia ninguém. De modo que não sei se tudo o que vi e vivi por ali não passou de mera viagem de minha imaginação quixotesca.Do portão em diante, contudo, agora percebo, o jardim é um amontoado de galhos ressecados e uma pequena fonte seca jaz como o todo o ar em torno de mim Então, como em apenas um dia o jardim que era como o limiar de um olimpo risonho, transformou-se nesse nada angustiante? Chamei pelo nome uma, duas, três vezes e mais. Nada me devolveu o som, nem mesmo algum eco distraído. A casa desbotara. A vida em torno e dentro dela desbotara e a poeira assentara-se como acontece se depois de danças e festas descansasse em sono eterno. E eu, empobrecida, senti que precisava mesmo me resignar e fustigar essa minha mania de viajar para dentro e pelos arredores de mim, criando coisas, pessoas e lugares como quem de tudo participa e a tudo desvenda e vê. Do portão para fora - eu já de saída, a imagem mais exata da decepção - a rua tinha alguns sons abafados e o sol aquecia, modorrento, como num início de tarde de janeiro. Mas ainda ontem, ali mesmo, era o frescor de abril! Desci a ladeira, depois que, da esquina, acenei em pensamento para mais um cenário de meus devaneios. Ali estariam para sempre alguns rostos e fatos que me haviam emocionado, encantado, enamorado apenas um dia antes. É. Ficariam guardados de um modo que eu jamais saberia exatamente qual e em sua festa fariam seus próprios comentários sobre a peregrina que por ali passara em pleno acontecimento do nada.
Na ladeira, meninos brincavam e a bola quebrava uma vidraça. Seria aquela beleza mera apenas uma quimera também?
Sorri para mim e, porque sorri, segui.


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[imagem: via bloohaz]

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