Que todas as coisas tenham um sabor de verão mesmo no outono de minha
vida. E que eu tenha a verdade em mim a perseguir meus danos e as perdas que
sofri ao longo de um caminho repleto de sol e molhado pela chuva que somente os
abismos conhecem. Não sei de mim muito mais do que o resto da gente que anda e
percorre sonhos e faz trejeitos malucos de quem sabe o que faz. Ninguém sabe.
Ninguém consegue colher exatamente o que plantou. Porque as ervas daninhas
andaram crescendo em torno dos vastos campos semeados de amor e os canteiros
ressecaram em busca das mãos. As mãos que deveriam trazer água e que jamais
chegaram.
Tudo poderia ter um outro sentido, mas o que se perde e não mais se vê
tem um destino diferente do que foi traçado por sonhos pueris. Lamenta-se.
Mesmo assim, prossegue-se e nada se teme mais do que a noite negra que a tudo
contamina e afugenta, não por falta de lua ou de estrelas, mas por não se fazer
presente de forma honesta, limpa. Que eu esteja iluminada, então, para que
ninguém tenha medo de mim. Nem mesmo meus temores. Nem mesmo eu.
Que meu sorriso antigo jamais se canse e que eu saiba que sendo eu
mesma estarei sendo a verdade que persegui por anos e séculos e milênios. Estranho
como ela tem o mesmo frescor de minha juventude! Os dias serão de cores
diferentes e eu ainda estarei aqui, porque persigo o que desenhei no muro das
lamentações e, antes disso, nos círculos de pedras das terras altas, na Pátria
eterna e feminina de Avalon. Serei canto de pássaros azuis quando me despedir e
tiver em minhas mãos apenas o sorriso poderoso de minha filha. Ela entenderá
cada palavra minha, porque reage conforme a atmosfera criou seu rumo. Então,
serei o vento a alimentar seu fogo e ela se conduzirá pelas terras planas e
desertas sem olhar para trás, porque saberá que pode chegar aos verdes vales
que a vida prometeu a mim e que, por legado, serão dela. E assim, serei ainda. Presa
e livre nas cores, nas mãos e no peito dela.
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[imagem: aglaé gil]
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