quarta-feira, 27 de maio de 2015

________rastros








Que todas as coisas tenham um sabor de verão mesmo no outono de minha vida. E que eu tenha a verdade em mim a perseguir meus danos e as perdas que sofri ao longo de um caminho repleto de sol e molhado pela chuva que somente os abismos conhecem. Não sei de mim muito mais do que o resto da gente que anda e percorre sonhos e faz trejeitos malucos de quem sabe o que faz. Ninguém sabe. Ninguém consegue colher exatamente o que plantou. Porque as ervas daninhas andaram crescendo em torno dos vastos campos semeados de amor e os canteiros ressecaram em busca das mãos. As mãos que deveriam trazer água e que jamais chegaram.
Tudo poderia ter um outro sentido, mas o que se perde e não mais se vê tem um destino diferente do que foi traçado por sonhos pueris. Lamenta-se. Mesmo assim, prossegue-se e nada se teme mais do que a noite negra que a tudo contamina e afugenta, não por falta de lua ou de estrelas, mas por não se fazer presente de forma honesta, limpa. Que eu esteja iluminada, então, para que ninguém tenha medo de mim. Nem mesmo meus temores. Nem mesmo eu.
Que meu sorriso antigo jamais se canse e que eu saiba que sendo eu mesma estarei sendo a verdade que persegui por anos e séculos e milênios. Estranho como ela tem o mesmo frescor de minha juventude! Os dias serão de cores diferentes e eu ainda estarei aqui, porque persigo o que desenhei no muro das lamentações e, antes disso, nos círculos de pedras das terras altas, na Pátria eterna e feminina de Avalon. Serei canto de pássaros azuis quando me despedir e tiver em minhas mãos apenas o sorriso poderoso de minha filha. Ela entenderá cada palavra minha, porque reage conforme a atmosfera criou seu rumo. Então, serei o vento a alimentar seu fogo e ela se conduzirá pelas terras planas e desertas sem olhar para trás, porque saberá que pode chegar aos verdes vales que a vida prometeu a mim e que, por legado, serão dela. E assim, serei ainda. Presa e livre nas cores, nas mãos e no peito dela.

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[imagem: aglaé gil]





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