Do outro lado da rua havia umas laranjeiras carregadas, os galhos
pesados de tantas laranjas. Cheiravam tão bem! Eu tinha vontade de ficar à
sombra de uma delas e me empanturrar. Dava água na boca. Havia quanto tempo eu
não comia uma laranja assim, tirada do pé? Era como se fossem uns duzentos
anos! A soma dos anos...vinte, trinta, duzentos... Que importava? O que é o
tempo? A laranja, enfim, tinha um sabor doce e sua acidez era desejada pelo
paladar. Desceram-me pela garganta: sumo, gomos, bagaço. Era como um néctar
precioso de todos os deuses. Aquela laranja, de repente, era como a vida -
tinha o gosto da vida. No céu, já pelo meio da tarde, o sol pestanejava entre
as nuvens passantes. Para onde iam, afinal? Quanto vagar naquele céu de inverno
do hemisfério sul! O céu era o tempo - tinha a cara do tempo. Passava,
preguiçoso. Mas também corria, veloz e furioso feito o vento que varre nuvens
lá em cima. Lá em cima. As mãos estavam lambuzadas de laranja. Vontade saciada,
dia ganho. Vida bonita, clima bom. A sensação de poder ser o que quisesse
voltava. Logo eu, que saíra de uma dor qualquer e retornava à rua das
possibilidades. Adiante, depois da próxima esquina, poderia haver mais frutos e
mais cores. As cores eram os meus sentimentos: vestidos conforme pedem as
estações.
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[imagem: ap.digital]

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