O
vento entrando pela janela e mexendo a cortina tornou ainda mais evidente o
rasgo. O rasgo na cortina. Quase perfeito, redondo. Um rasgo no tecido feito um
rasgo na alma, feito um vazio onde havia algo. Pensei nos meus rasgados panos -
rasgados planos, sonhos, atos. Pensei nos vazios de mim e no vazio de outros. E
fiquei ali, olhando para aquele rasgo no tecido velho da cortina velha que
estava na janela da sala antiga do apartamento antigo, da vida antiga. Logo,
era como um rasgo na própria vida. E como se não conseguissem ser outra coisa
além de dois observadores obcecados, os olhos teimavam em se isolar naquele
rasgo quase perfeito. Redondo. Ali faltava um pedaço de pano como se faltasse
um pedaço de alma, um pedaço de vida. Um pedaço de pele. Um membro. Um órgão.
Faltava. Já não havia. Já não existia. Contudo, chamava mais, muito mais a
atenção assim: pela falta, pela ausência. Por ser rasgo. Não fosse assim, os
olhos nem se demorariam no tecido velho da cortina velha que enfeitava havia
anos a janela antiga. A ausência faz isso. Chama para si a atenção, a dor, o
olho do observador. O vazio faz isso. O membro amputado ainda dói, é o que
dizem. É como se fosse mais sentido. O vento já nem ventava e eu estava olhando
para o rasgo quase perfeito imaginando como ele acontecera. Talvez apenas o
tecido estivesse puído. Era velho. Fora lavado tantas e tantas vezes. O branco
já era até cinza. O cinza encardido da poluição que sobe para os apartamentos
dos andares mais altos dos prédios. Tudo tão gasto. A vida gasta, a alma gasta
que às vezes recebe um sopro de novidade, mas que se pega já arrumando malas
para o país onde moram tantas outras, já leves e em processo de reconstrução.
Um tecido se rompe pelo tempo. É como tudo. É como a vida. Mas, o que faço
desse rasgo? Remendo? Deixo? O que se faz com os rasgos de vida? Qual será o
cerzido perfeito? Não sei. Um dia, vi uma noiva passando correndo em frente a
casa de minha tia. Os saltos do sapato dela faziam um barulho esquisito que
parecia responder aos soluços dela. Fiquei no portão, boquiaberta com aquele
espetáculo tão triste. Havia um rasgo no véu dela. O tule rasgado como que
puxado por uma raiva absurda, de propósito, para deixar feia a noiva que, só
por ser noiva, já se presume linda. Um rasgo. Ela também parecia rasgada como
seu véu. Em tiras. Seu soluço seco amedrontava quem ouvia. Vinha de um abismo
ele próprio rasgado em uma superfície antes lisa, ainda que fina. E quem pode
cerzir algo tão profundo? E me veio a lembrança tão antiga do véu esvoaçante da
noiva sofrida. Louca nave a sapecar as pedras da rua com a dor rasgada de não
mais ser. Pensando nisso tudo talvez soletre-me a natureza de mim uma letra que
me inspire a descobrir o cerzido perfeito para o rasgado da vida. Então penso
no que somos. E somos, cada um e todos, frutos de um violento rasgo que, de um
modo ou de outro, abrimos em nossas mães para existir. Para ver a luz primeira.
Para aspirar o primeiro golfo de ar. Nascemos assim. Rasgando. E seguimos pela
vida a enfrentar rupturas e costuras, alinhavos, maus e bons cerzidos. Mas,
antes, somos a embrutecida forma de romper o ventre que nos alimenta. O rasgo,
o rasgar, é um mau costume.
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[imagem: laura conrad]

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