Enquanto
ele dormia, o dia amanhecia e as ruas começavam a se agitar até transbordarem
de gente e de sol. Eu olhava pela janela e o dia tinha um gosto de café com
leite, forte, que fumegava na caneca que dançava em minha mão. Dentro de casa,
silêncio. E ele, dormia. Enquanto isso, o banho me lavava o corpo e a alma. O
banho me aprontava e o cheiro de ervas me excitava para o dia. O beija-flor
chegava, lambuzava-se de açúcar e partia com aquilo que devia ser um sorriso de passarinho estampado nos
olhinhos escuros. As cores do jardim, repleto de sol, já eram outras; e você
dormia. Eu deixava meus cabelos soltos e os escovava por vezes seguidas.Eles já
haviam sido mais brilhantes. Já haviam sido mais castanhos. De qualquer forma,
continuavam como moldura ondulada de um rosto que - o espelho me mostrava -
ganhara uma nova ruga. Enquanto isso, ele dormia. Mais ruído. Tantas vozes.
Gente indo, gente vindo. O dia crescia com o sol, que subia. Cães latiam e até
um galo, retardatário, cantava de um jeito meio sofrido e assustado. Eu me
desfazia da seda que me vestia e me envolvia com a roupa que enfrentaria comigo
o dia que já era maior que eu. Porque era urgente, sempre é. Porque me
carregava com ele. Enquanto ele dormia, a vida atravessava - feito uma ferrovia
- a cidade nossa. Mas ele apenas dormia e nada daquilo via. Por isso, enquanto
ele dormia, dormia toda a vida que eu sonhara para mim.

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