segunda-feira, 25 de maio de 2015

____expectar










 



Olhei para fora e a vida chovia num final de tarde de também final de verão. O meu olhar já ia para fora carregado de uma sensação outonal, meus olhos tinham calafrios prevendo mais chuvas, águas intensas e tudo o que acontecia fora de mim eram as nuvens espessas a desaguarem uma fina garoa. Decepcionante. Pela escuridão, achava-se que a chuva seria pesada, densa, barulhenta. Expectativas nem sempre se cumprem. Na verdade, quase nunca. Por isso o trabalho é tão concreto e gratificante. Trabalha-se e recebe-se pelo que trabalhou. Não há expectativa; há a produção e o produto. Líquido e certo. O mais pode ficar pelo caminho. O sonho e a esperança alimentam os olhares que esperam ansiosos olhando para a esquina de onde pode surgir o bem ou o mal. Coração acelerado. Peito arfante, respiração entrecortada: os sintomas corriqueiros da paixão. Nada que possa se carregar com as mãos ou com os olhos descansados do dever cumprido. O ponto de equilíbrio pode ser o valor que se dá ao que se é. Lá fora a tarde se fez noite e a vida chove um ar abafado, quente. Uma pequena gota de suor eu sinto em minha nuca. Onde toco há umidade e calor. Evapora como os pensamentos, porque eles correm em desenfreada ansiedade. Como são rápidos e tensos! No céu, uma nuvem tem forma de flor escura. Mas uma flor. Que importa a cor quando se é flor? E, sem qualquer expectativa, uma estrela miúda vence o mutirão de nuvens, dá um boa-noite contido e se veste novamente de uma noite que ainda promete mais chuva.

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[imagem: via diana212 ]




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