Olhei
para fora e a vida chovia num final de tarde de também final de verão. O meu
olhar já ia para fora carregado de uma sensação outonal, meus olhos tinham
calafrios prevendo mais chuvas, águas intensas e tudo o que acontecia fora de
mim eram as nuvens espessas a desaguarem uma fina garoa. Decepcionante. Pela
escuridão, achava-se que a chuva seria pesada, densa, barulhenta. Expectativas
nem sempre se cumprem. Na verdade, quase nunca. Por isso o trabalho é tão
concreto e gratificante. Trabalha-se e recebe-se pelo que trabalhou. Não há
expectativa; há a produção e o produto. Líquido e certo. O mais pode ficar pelo
caminho. O sonho e a esperança alimentam os olhares que esperam ansiosos
olhando para a esquina de onde pode surgir o bem ou o mal. Coração acelerado.
Peito arfante, respiração entrecortada: os sintomas corriqueiros da paixão.
Nada que possa se carregar com as mãos ou com os olhos descansados do dever
cumprido. O ponto de equilíbrio pode ser o valor que se dá ao que se é. Lá fora
a tarde se fez noite e a vida chove um ar abafado, quente. Uma pequena gota de
suor eu sinto em minha nuca. Onde toco há umidade e calor. Evapora como os
pensamentos, porque eles correm em desenfreada ansiedade. Como são rápidos e
tensos! No céu, uma nuvem tem forma de flor escura. Mas uma flor. Que importa a
cor quando se é flor? E, sem qualquer expectativa, uma estrela miúda vence o
mutirão de nuvens, dá um boa-noite contido e se veste novamente de uma noite
que ainda promete mais chuva.
____________________
[imagem: via diana212 ]

Nenhum comentário:
Postar um comentário