Não
sei por que, mas eu fui. Fui e fiquei por muitos anos ali, naquela relação que
se equilibrava entre turbulências e mágoas. Não sei quem começou, quem
convidou, quem teve a ideia. Foram quinze anos de uma bruma esquisita e profana
em minha vida. E um imenso hiato em minha poesia. Ele tinha o hábito triste e
mórbido de rasgar meus poemas ainda dentro de mim e jogá-los no cesto das
ideias triviais. Assim, tudo foi tão mal escrito e mal vivido que saí com os
meus véus em frangalhos, saí com minhas feridas abertas. E meu amor, ulceroso,
cansado, doente, ficou acamado por três longos movimentos de translação. É. Por
três vezes a Terra teve que dar a volta ao Sol para que eu começasse a dar
conta de minha mente e, sobretudo, cerzir e remendar meus véus. De lá para cá,
alinhavei com alguns pontos que acreditava estarem totalmente errados, mas,
soube quando me reconheci no espelho, mostravam minhas nuances escuras, os
mantos sob os quais um bom tanto de mim se escondia enquanto tentava -ou
acreditava que tentava - salvar do naufrágio impiedoso um amor que nem era.
Jamais, enfim, havia sido. Então, eu havia entrado por uma porta e o amor saíra
pela outra - ele com a esperança de que eu reconhecesse sua saída e eu...
entorpecida por possibilidades alheias ao que realmente desejava. Então, os
anos de várias cores e tons começou a fazer parte de memórias, nada mais. Com o
que pude catar de mim fiz ali um mosaico estranhíssimo, digno de um Dali de
saias, mas que cumpre direitinho sua missão. Manter-se, feito de partes, de cacos
de mim, inteiro.
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{imagem: salvador dali, via magdalena tyrchan]

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