Apesar
de algum esforço reconheço: a solidão desse homem que acreditei meu ou de minha
vida continua tão grande quanto a do deserto de Atacama. É varrida por ventos
violentos que rasgam qualquer possibilidade de aproximação de quem quer que
seja. Não foi por falta de tentar, não. Até que eu percebi o quanto seria
inútil continuar tentando. Porque existem pessoas que sentem a necessidade premente
de estarem sorvendo de si o mel e o fel da própria solidão. Na realidade,
acabamos sendo, sempre, muito parecidos. Apesar de eu lhe arrancar sorrisos
vigorosos, não pude mostrar a ele que minha ternura poderia fazer de nós um
par. Então, certo dia, dia incerto, arrumei minhas coisas: em minha mala, cada
peça de roupa estava dobrada com alguma relutância, mas ainda cheirava a
lavanda. Da cozinha vinha o aroma do café perfeito, forte, encorpado, para ser
bebido tristemente. Lá fora, a garoa lembrava muito mais o mês de agosto. Em
minha mente, eu ouvi uma balada. Dividi com ele a última xícara de café,
adoçado a gosto e saí, cantarolando mentalmente como se a balada me salvasse
das lágrimas e me impedisse de parecer patética. Da porta para fora, a impressão
que tive foi a de que a vida, lá dentro, deixara de existir. Como se
desaparecesse tudo, como acontece naqueles jogos em que se sobrepõem os
cenários. O choro veio antes de eu terminar a balada em minha mente. Veio
manso, sem tremores. Veio escuro, como aquele final de tarde. Veio para levar o
grito que não dei. Com uma das mãos, ergui a gola do casaco de malha. Fazia
frio. E ainda era janeiro.
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[imagem: aglaé gil]
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