quarta-feira, 27 de maio de 2015

________ficou em algum lugar








Apesar de algum esforço reconheço: a solidão desse homem que acreditei meu ou de minha vida continua tão grande quanto a do deserto de Atacama. É varrida por ventos violentos que rasgam qualquer possibilidade de aproximação de quem quer que seja. Não foi por falta de tentar, não. Até que eu percebi o quanto seria inútil continuar tentando. Porque existem pessoas que sentem a necessidade premente de estarem sorvendo de si o mel e o fel da própria solidão. Na realidade, acabamos sendo, sempre, muito parecidos. Apesar de eu lhe arrancar sorrisos vigorosos, não pude mostrar a ele que minha ternura poderia fazer de nós um par. Então, certo dia, dia incerto, arrumei minhas coisas: em minha mala, cada peça de roupa estava dobrada com alguma relutância, mas ainda cheirava a lavanda. Da cozinha vinha o aroma do café perfeito, forte, encorpado, para ser bebido tristemente. Lá fora, a garoa lembrava muito mais o mês de agosto. Em minha mente, eu ouvi uma balada. Dividi com ele a última xícara de café, adoçado a gosto e saí, cantarolando mentalmente como se a balada me salvasse das lágrimas e me impedisse de parecer patética. Da porta para fora, a impressão que tive foi a de que a vida, lá dentro, deixara de existir. Como se desaparecesse tudo, como acontece naqueles jogos em que se sobrepõem os cenários. O choro veio antes de eu terminar a balada em minha mente. Veio manso, sem tremores. Veio escuro, como aquele final de tarde. Veio para levar o grito que não dei. Com uma das mãos, ergui a gola do casaco de malha. Fazia frio. E ainda era janeiro.


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[imagem: aglaé gil]




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